Os Jardins do antigo Egito

 O Egito sendo a dadiva do Nilo e sua ocupação desde dos tempos remotos iniciando em suas margens e prosseguindo por seus canais de irrigação e intermináveis pomares e hortas, foi se aprimorando a convivência com a agricultura, a medida que o pais tinha pleno domínio sobre a hidráulica e enriquecia, os pomares evoluíram para jardins de lazer, floridos, com lagos, piscinas e corredores sombreados com arvores frutíferas. Os antigos egípcios valorizavam muito a presença de jardins em suas residências, cuidando deles com grande atenção. Tanto nas áreas urbanas quanto nas rurais, era comum que cada proprietário desejasse cultivar hortaliças, frutas e legumes. Mesmo as famílias menos abastadas plantavam árvores em pequenos quintais; templos, palácios e residencias privadas tinham seus próprios jardins, nada modestos e geralmente murados. Por outro lado, os mais ricos construíam jardins luxuosos, que muitas vezes superavam em dimensões e beleza as próprias casas. Durante a III dinastia (c. 2649 a 2575 a.C.), conforme relata R. El Nadury, historiador da Universidade de Alexandria, altos oficiais frequentemente possuíam jardins com mais de um hectare, sempre incluindo uma piscina, elemento característico dos jardins egípcios. Essas piscinas eram multifuncionais, servindo como viveiros de peixes, reservatórios de água e fontes de frescor para as casas ao redor. Não raro, os proprietários construíam pavilhões de madeira próximos às piscinas para aproveitar o frescor das noites e receber visitas em um ambiente agradável.

(fresco da Tumba de Nabamum. Fonte: commons.wikimedia)

Dado o clima quente e árido do Egito, os jardins desempenhavam um papel essencial no fornecimento de frescor. Eram estruturados em formas geométricas, com caminhos perpendiculares decorados por flores e sombreados por caramanchões. Árvores frutíferas, como videiras, tamareiras, figueiras e palmeiras, ladeavam os jardins. Cachos de uvas ornamentavam as videiras e eram uma iguaria apreciada pelos egípcios. Durante o verão, as refeições eram feitas em quiosques sob árvores, enquanto bebidas eram resfriadas em recipientes escondidos entre a vegetação. Patos e gansos, comuns nos pátios, desempenhavam o papel de "guardas" naturais devido ao seu grasnar característico. Todos os jardins tinham lagos artificiais com águas cobertas por nenúfares, nos quais patos nadavam e pequenas embarcações estavam disponíveis para lazer. Apicultura também era praticada nos jardins, utilizando jarras de cerâmica como colmeias.

A irrigação desses jardins exigia muito trabalho, pois estavam localizados em terrenos elevados, fora do alcance das cheias do Nilo. Essa tarefa, prolongada ao longo do ano, era feita utilizando piscinas que abasteciam regos. A água vinha de canais conectados ao Nilo ou de cisternas. Durante o Império Médio (c. 2040 a 1640 a.C.), eram usadas jarras de cerâmica para transportar água até os regos. Posteriormente, a invenção do shaduf, um mecanismo de alavanca com contrapeso, facilitou esse processo. Nos jardins, cultivavam-se alimentos como feijão, lentilhas, alface, cebola, melões e abóboras, além de frutas como tâmaras, figos e romãs. Flores também eram cultivadas para uso em festivais religiosos e seculares.

 
(Tomb painting of the gardens of Amon at the temple of Karnak, from the tomb of Nakh, the chief gardener. Early 14th century B.C. Fonte: commons.wikimedia)

As piscinas desses jardins podiam atingir grandes dimensões. No palácio do faraó Snefru, da IV dinastia (c. 2575 a 2551 a.C.), havia um lago onde o rei navegava acompanhado de remadoras. Na V dinastia, o vizir do rei Izezi registrou a construção de um jardim palaciano em seu túmulo. Durante a XVIII dinastia, o palácio de Amenófis III em Tebas possuía uma piscina monumental. Seu filho Akhenaton construiu o Maru-Aton, um jardim-santuário dedicado ao deus Aton, decorado com diversas piscinas cobertas. Ainda hoje, pinturas no solo de um dos recintos oferecem uma ideia da magnífica vegetação que embelezava o local. O templo de Amon, em Tebas, também possuía jardins e piscinas acessadas por entradas monumentais.

As pinturas tumulares do período retratavam cenas de jardins como símbolos de continuidade após a morte. Um exemplo notável é a pintura do túmulo de Nebamon, escriba dos celeiros, da XVIII dinastia (c. 1550 a 1307 a.C.). Essa obra apresenta uma piscina com pássaros, flores de lótus e tilápias, rodeada por papiros e árvores como tamareiras e sicômoros. Nessas pinturas, a tamareira era especialmente significativa, representando a árvore da vida. Em uma cena, a deusa Hátor, sob a forma de uma árvore, oferece presentes a Nebamon e sua esposa. Fragmentos dessa decoração estão hoje no Museu Britânico, sendo exemplos valiosos da arte funerária egípcia.

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